Cibersegurança

Ataques às geladeiras de supermercados: crimes cibernéticos passam a afetar diretamente o funcionamento da sociedade

Ataques cibernéticos atingem supermercados e serviços essenciais, ameaçando operações, infraestrutura crítica e a rotina da população

Publicado por: Redação
Sistemas de refrigeração de supermercado e infraestrutura de serviços essenciais sob risco de ataques cibernéticos.
(Imagem: Falando Tech)

Pesquisadora de cibersegurança explica como incidentes digitais chegam à água, ao transporte e ao abastecimento, e defende a resiliência cibernética como prioridade para o Brasil

Os ataques cibernéticos já alcançam o cotidiano das pessoas. Da interrupção de sistemas de refrigeração em supermercados ao abastecimento de água, passando pela venda de passagens e pelos postos de combustível, esses incidentes podem desestabilizar sociedades, afetar serviços essenciais e enfraquecer a confiança nas instituições.

Segundo a Dra. Michele Nogueira, PhD em Ciência da Computação pela Universidade de Sorbonne e professora e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a digitalização criou dependências que antes não existiam. “Supermercados usam sistemas de monitoramento da refrigeração. Ferrovias dependem de plataformas digitais para a bilhetagem, sinalização e logística. O abastecimento de água combina sensores, controladores industriais e sistemas de supervisão. Quando um componente digital falha ou é comprometido, a consequência se propaga para o mundo físico”, explica ela.

Para Michele, o dano cibernético não se mede mais apenas em dados perdidos ou computadores invadidos, mas em serviços interrompidos, recursos desperdiçados e pessoas afetadas. 

Dra. Michele Nogueira, professora titular da UFMG e PhD pela Universidade de Sorbonne.
(Dra. Michele Nogueira – Imagem: Divulgação)

“Um ataque não precisa destruir uma instalação para paralisá-la: basta tornar indisponível o componente digital do qual a operação depende”. A cibersegurança deixou de ser apenas uma questão de proteger sistemas digitais e dados. Tornou-se uma questão de proteger o funcionamento da sociedade”, afirma.

Michele explica que a escolha de ataque a uma geladeira ou a alvos aparentemente banais tem lógica. “Além das perdas financeiras e logísticas, existe a visibilidade: uma geladeira vazia, uma estação lotada ou uma fila em um posto de combustível produz imagens compreensíveis para qualquer pessoa e circulam rapidamente nas redes sociais. Um incidente tecnicamente limitado pode gerar repercussão social muito maior do que sua extensão inicial”, detalha a pesquisadora. 

O Brasil e a proteção de seus sistemas

O país tem sistemas bancários altamente conectados, serviços públicos digitais, infraestrutura de energia e telecomunicações, cadeias logísticas e operações industriais cada vez mais digitalizadas. Isso amplia as oportunidades de desenvolvimento e também a exposição a incidentes.

Para Michele, uma falha em um fornecedor de tecnologia ou em uma plataforma compartilhada pode comprometer várias operações ao mesmo tempo.

“Proteger cada organização isoladamente já não basta, é preciso mapear as dependências entre sistemas, identificar os serviços essenciais e criar mecanismos que preservem suas funções críticas mesmo sob ataque”, relata ela.

Da proteção à resiliência

Firewalls, autenticação multifator, criptografia e detecção de intrusões continuam indispensáveis, mas não é razoável supor que todos os ataques serão evitados. A pergunta, segundo a pesquisadora, passa a incluir o que acontece quando um componente é comprometido, quais serviços precisam continuar funcionando e como recuperar a operação com segurança?

“Resiliência cibernética não é invulnerabilidade. É a capacidade de antecipar, resistir, absorver impactos, adaptar-se e recuperar funções essenciais. Na prática, envolve arquiteturas redundantes, segmentação de redes, modos de operação degradada, procedimentos manuais de contingência e planos de recuperação testados. A inteligência artificial ajuda a identificar comportamentos anômalos e apoiar decisões de resposta, mas traz riscos próprios, como falsos positivos, manipulação de modelos e decisões automatizadas inadequadas”, explica Michele Nogueira.

A dimensão humana

As consequências de uma interrupção não se distribuem de forma igual. Quem depende do transporte público, pacientes que precisam de atendimento contínuo e comunidades com poucas alternativas sofrem impactos desproporcionais. Por isso, a análise de riscos não pode se basear apenas no valor financeiro dos ativos. A comunicação durante os incidentes também pesa: informações claras, tempestivas e verificáveis reduzem incertezas e evitam que rumores ampliem os efeitos de um ataque.

“O desafio não é apenas construir sistemas mais difíceis de atacar. É construir sistemas, organizações e instituições capazes de continuar funcionando, adaptar-se e recuperar-se quando ataques inevitavelmente ocorrerem”, conclui Michele Nogueira.