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Reforma Tributária pode redesenhar mapa de fábricas e centros de distribuição no Brasil

Publicado por: Redação
Reforma Tributária pode redesenhar mapa de fábricas e centros de distribuição no Brasil
(Imagem: Divulgação/Live University | INBRASC)

Redução do peso dos incentivos fiscais leva empresas a rever localização de operações, contratos, fornecedores, sistemas e investimentos que produzirão efeitos nos próximos anos

Durante décadas, benefícios fiscais tiveram peso relevante na decisão de empresas sobre onde instalar fábricas e centros de distribuição no Brasil. Com a transição para o novo sistema tributário, estruturas desenhadas a partir desses incentivos começam a exigir uma nova análise — e decisões tomadas agora podem determinar a configuração das cadeias de abastecimento por muitos anos.

O tema foi debatido no painel “A Reforma Tributária vai redesenhar a logística brasileira?”, durante o Fórum de Logística, realizado pela Live University | INBRASC. Participaram David de Carvalho, professor da Live University | INBRASC; Renata Fioravante, Senior Executive Director do Campari Group; Ricardo Hartl, diretor de Logística América do Sul da Cargill Food; e Ana Lidia Cunha, professora da Live University | Confeb.

A discussão mostrou que os impactos da Reforma Tributária ultrapassam as áreas fiscal e financeira. Localização de fábricas e centros de distribuição, escolha de fornecedores, contratos, formação de estoques, sistemas e investimentos de longo prazo também entram na conta.

Um dos casos apresentados durante o painel envolve uma empresa que mantém fábrica em Recife por causa de benefício fiscal, um centro de distribuição em Extrema, Minas Gerais, e concentra em São Paulo seu maior mercado consumidor. Com a mudança das regras, a companhia já avalia se essa estrutura continuará eficiente nos próximos anos.

A discussão não significa necessariamente transferir fábricas ou fechar centros de distribuição imediatamente. Os incentivos atuais ainda terão peso durante parte da transição. O desafio é que decisões industriais demandam tempo e capital: uma nova fábrica precisa ser planejada, aprovada e construída, e escolhas realizadas hoje podem produzir efeitos por décadas.

Uma das perguntas levantadas no debate funciona como exercício para as empresas: se a Reforma Tributária já estivesse integralmente em vigor, a operação atual continuaria rentável? A resposta ajuda a identificar estruturas cuja competitividade depende dos benefícios existentes e a estimar em que momento essa vantagem poderá desaparecer.

Contratos assinados hoje atravessarão a transição

O impacto também chega a decisões menos visíveis. Contratos de fornecimento e logística fechados agora podem permanecer válidos por dois, três ou mais anos, período no qual parte das regras tributárias terá mudado.

Cláusulas genéricas destinadas a mudanças de tributos podem não ser suficientes para determinar como novos impactos financeiros serão divididos entre compradores, fornecedores e prestadores de serviço.

A adaptação de uma única companhia tampouco resolve necessariamente a questão. Fornecedores, clientes e distribuidores podem avançar em ritmos diferentes durante a transição. Caso um fornecedor não esteja preparado para as novas regras, os efeitos podem alcançar créditos tributários, desembolso financeiro e o custo efetivo da empresa compradora.

Isso muda inclusive a forma de avaliar fornecedores. Preço, prazo e nível de serviço continuam relevantes, mas créditos tributários e efeitos financeiros podem fazer com que uma proposta aparentemente mais barata deixe de ser a mais vantajosa quando considerado o custo total da operação.

Sistemas também entram na conta

ERPs, sistemas fiscais, ferramentas de transporte e plataformas de gestão de armazéns receberam ao longo dos anos inúmeras customizações para lidar com a complexidade tributária brasileira. A reforma exigirá novas adaptações e poderá expor limitações em processos e integrações existentes.

Algumas grandes organizações já criaram grupos multidisciplinares para acompanhar a transição, reunindo profissionais de diferentes áreas e consultorias. A lógica é evitar decisões isoladas: uma mudança comercial pode gerar efeitos em compras, tributação, fluxo financeiro e tecnologia simultaneamente.

A mudança também alcança empresas dependentes de importações. Rafaela Rangel, da JoomPro, que atua há 15 anos em Supply Chain com foco em comércio exterior, chama atenção para a necessidade de acompanhar de perto as definições durante o período de transição. “A Reforma Tributária é uma novidade para todo mundo e ainda está em construção. Há muita coisa que será validada. O máximo de previsibilidade que podemos ter depende de conhecimento e de acompanhar o tema”, afirma.

Enquanto o novo sistema não substitui integralmente o atual, benefícios fiscais estaduais ainda continuam presentes na composição das operações. Para empresas que compram da China, por exemplo, decisões envolvendo fornecedores, importação e distribuição precisam considerar tanto as regras vigentes quanto a configuração tributária que entrará gradualmente em vigor.

O principal alerta do painel é que uma transição longa não significa que as empresas possam adiar a preparação. Investimentos, contratos e estruturas definidos hoje permanecerão em operação quando uma parte relevante das novas regras já estiver valendo.

Se os incentivos fiscais ajudaram a definir onde produzir e distribuir no passado, fatores como custo logístico, eficiência da cadeia e proximidade do mercado consumidor tendem a ganhar peso na análise das estruturas dos próximos anos.

Sobre a Live University | INBRASC

A Live University | INBRASC é um ecossistema de educação, conexão e inteligência voltado às áreas de Supply Chain, Compras e Logística. Atua com formação executiva, eventos, comunidades profissionais e produção de conhecimento voltada aos desafios enfrentados pelas empresas.

Fonte: Live University | INBRASC