
O setor de construção está prestes a experimentar uma transformação sem precedentes. Nuvens industriais, IA generativa, canteiros autônomos e segurança preditiva já não são apenas tendências isoladas, mas elementos que convergem para formar um sistema verdadeiramente inteligente. O setor caminha para um novo patamar, onde a conectividade e a inteligência orientada por dados tornam decisões mais assertivas e projetos mais previsíveis, produtivos e rentáveis.
Nesse contexto de reposicionamento profundo, já não basta falar em transformação digital ou investir em melhorias pontuais. Para prosperar nos próximos anos, especialmente diante das mudanças aceleradas previstas em 2026, será fundamental abandonar velhos paradigmas e repensar processos desde o início. O diferencial competitivo não estará mais apenas na expertise acumulada, mas, cada vez mais, na capacidade de integrar inteligência baseada em dados a todas as etapas do negócio. As empresas líderes enxergarão os dados como um recurso estratégico, essencial para impulsionar decisões e inovação, e não apenas como um subproduto do trabalho.
Nesse contexto, cinco movimentos principais devem transformar a construção civil em 2026:
Soluções desconectadas e improvisadas já não atendem às demandas da construção moderna. A chegada da nuvem industrial está redefinindo a gestão de projetos ao criar um repositório central e interoperável para todos os dados, que acompanha cada etapa do planejamento à execução. Em vez de integrações limitadas, trata-se de uma plataforma que realmente conecta proprietários, empreiteiros e equipes técnicas, padronizando informações e processos. O resultado é o desaparecimento dos antigos silos: agora, qualquer atualização de escopo afeta, em tempo real, o orçamento e o cronograma de todos os participantes.
Essa virada tecnológica põe fim às intermináveis discussões sobre versões e planilhas incompatíveis. O tempo que antes era desperdiçado reconciliando dados passa a ser canalizado para resolver questões relevantes do projeto. A fonte única de verdade deixa de ser promessa e vira prática, reduzindo disputas, acelerando aprovações e garantindo dados precisos e confiáveis. É essa base sólida que permite que a inteligência artificial, alimentada por dados limpos, avance e sustente a transformação digital do setor.
A inteligência artificial generativa oferece aos donos de projetos um nível inédito de visibilidade e controle. Isso, porém, não reduz a importância dos empreiteiros, mas amplia seu papel. Com a IA monitorando o progresso, avaliando etapas e sinalizando desvios, o profissional se livra da reconciliação manual de dados e pode dedicar mais tempo ao que realmente importa: orquestrar o projeto de forma estratégica. O papel do empreiteiro deixa de ser operacional e passa a ser tático, utilizando os insights gerados pela IA para alinhar todos os stakeholders.
Na prática, a equipe não começa mais a semana reunindo relatórios de andamento. Agora, o foco está na análise de alertas críticos identificados pela IA, como potenciais atrasos ou riscos de aumento de custos. A experiência do empreiteiro deixa de ser consumida por tarefas repetitivas e passa a ser empregada em decisões de impacto, como reprogramar atividades, realocar recursos e evitar retrabalho. O empreiteiro assume uma nova posição: deixa de ser apenas um construtor e se torna maestro de uma operação complexa, totalmente orientada por dados.
A escassez persistente de mão de obra está tornando os sistemas autônomos cada vez mais indispensáveis. Em 2026, o planejamento apoiado por inteligência artificial vai além da simples alocação de recursos e passa a gerir fluxos de trabalho de forma autônoma, levando em conta as condições reais do canteiro e garantindo que equipes e equipamentos estejam automaticamente no lugar certo, no momento adequado.
Enquanto isso, profissionais experientes assumem papéis de supervisão e mentoria, deixando para robôs a execução de tarefas repetitivas ou de maior risco. Diante da necessidade de quase 500 mil novos trabalhadores para atender à crescente demanda, a colaboração entre humanos e IA se consolida como o único caminho sustentável para manter a produtividade. Nesse cenário, o papel do empreiteiro evolui: ele se torna um integrador, capaz de combinar experiência humana e automação para garantir que o canteiro opere como um sistema coeso e inteligente.
Com a expansão da construção modular e da produção em fábrica, a complexidade logística dos projetos cresce consideravelmente. O sucesso não depende apenas de produzir componentes fora do canteiro, mas também de integrá-los ao fluxo de trabalho no campo com precisão e eficiência. Surge, assim, um novo papel para os empreiteiros: atuar como integradores dos fluxos modulares.
Essa função é fundamental para conectar o chão de fábrica ao andamento da obra, exigindo a administração de uma cadeia de suprimentos mais sofisticada, com entregas programadas para chegar exatamente no momento necessário, e a garantia de que o gêmeo digital de cada módulo corresponda à realidade do canteiro. Empreiteiros capazes de dominar essa dinâmica vão concretizar os benefícios prometidos pela construção modular: mais velocidade, qualidade superior e redução de custos. Já quem não acompanhar essa evolução terá de lidar com desafios logísticos que podem comprometer o sucesso do projeto.
Por muitos anos, a segurança foi tratada como um setor à parte, gerida de maneira isolada das demais operações. Em 2026, esse cenário muda: a segurança preditiva se consolida como um indicador central da operação e um verdadeiro motor de produtividade. Os mesmos sistemas de IA capazes de identificar, por exemplo, a ausência de um capacete, também passam a detectar falhas de fluxo, conflitos de sequência e problemas iniciais de qualidade.
Com isso, um alerta de segurança deixa de sinalizar apenas perigo iminente e passa a funcionar como um aviso antecipado de atritos operacionais. O sistema identifica a causa raiz do risco, protegendo os trabalhadores e reduzindo acidentes. Como efeito direto, essas informações contribuem para o aprimoramento dos cronogramas e a manutenção da qualidade da obra. Os resultados já aparecem na prática: empresas que adotaram esse modelo registram reduções de 30% a 50% nos incidentes logo no primeiro ano, comprovando que canteiros mais seguros são, também, mais produtivos e lucrativos.
Escrito por: Renata Pessoa
*Renata Pessoa é vice-presidente de Vendas de Apps da Oracle América Latina.