IA requer linguagem e responsabilidade próprias, para elevar o nível do jogo

Inteligência Artificial
Imagem: Worawut Prasuwan / Canva

De acordo com levantamento da Ethnologue, maior autoridade mundial na pesquisa de linguagens desde 1951, existem pouco mais de 7 mil línguas vivas em todo o planeta. A maioria delas não alcança 1 milhão de falantes; mais da metade da população mundial fala apenas 23 de todos esses idiomas, graças à colonização e à globalização. 

A transformação da linguagem é lenta, já que ela é um dos grandes pilares da variedade de povos e culturas. A linguagem binária usada em toda sorte de tecnologia, no entanto, se transfigura e ganha escala exponencialmente, inclusive em relação à velocidade de aprendizado ou atualização das ferramentas inovadoras. 

O desenvolvimento e a popularização da tecnologia, nos últimos vinte anos, estão intimamente ligados à eficácia da criatividade, ou seja, à aplicação de ideias criativas em soluções, serviços e produtos que alcançam certos objetivos, ainda que não sejam os objetivos imaginados inicialmente. Podemos citar diversas criações que se encaixam nessa ideia, desde a bicicleta até a mais avançada plataforma de Inteligência Artificial. 

Para unir a criatividade à eficiência, a tecnologia coloca o tempo para trabalhar em seu favor: evolui com agilidade, se aprimora e, enquanto isso, torna-se indispensável. Se, há alguns anos, a inovação contava uma história linear, com início, final e um número limitado de capítulos, hoje fazemos parte da construção de narrativas múltiplas, contínuas e multi autorais. São infinitas possibilidades de repertórios, compartilhados em tempo real. 

A Inteligência Artificial é um enredo vasto. Os autores escrevem, reescrevem e apagam cenários e personagens, de acordo com sua autonomia. Inicialmente, parece não fazer muito sentido um romance que narra a vida de um vampiro português, que luta contra moinhos no nono círculo do inferno, enquanto navega até Tróia para resgatar Macunaíma. O potencial para inventar combinações, porém, é infinito. 

As possibilidades que o desenvolvimento da IA está colocando sobre a mesa são atualizadas todos os dias, assim como a própria linguagem humana. Sem interrupções, os pratos são servidos e saboreados, devolvidos e retornados. Os chefs da cozinha continuam trabalhando incansavelmente para experimentar, ao mesmo tempo em que adicionam mais sabores ao cardápio.

Para um buffet dessa magnitude continuar entregando refeições surpreendentes, as regras da casa precisam estar estampadas na parede da cozinha. Nada que impeça as experimentações, nada que engesse, impeça questões ou mudanças, mas a ética de trabalho é essencial para garantir a eficácia do restaurante e a satisfação dos clientes. Trabalhar na cozinha exige responsabilidade. Desenvolver ferramentas de IA também.

A popularização das discussões sobre Inteligência Artificial tem causado frenesi. Os apocalípticos não demoraram a listar profissões que serão extintas ou atualizar estatísticas de desemprego que podem alcançar níveis catastróficos. O ChatGPT tornou-se a trombeta do fim dos tempos. No entanto, minha experiência como executivo de uma empresa global que aplica soluções de IA para aumentar os resultados de vendas fez de mim um otimista.  

Esopo, conhecido autor de fábulas, escreveu a história da Lebre e da Tartaruga, que apostam corrida entre si. “Devagar e sempre” é o lema da Tartaruga, enquanto a Lebre dispara na frente, sem preparo nenhum. Em vez de torcer pela vitória de uma delas, hoje temos a possibilidade de criar um híbrido das personagens, capaz de chegar ao pódio sem tropeçar ou se machucar no meio do caminho.

Para obtermos o melhor de cada uma das personagens – a rapidez e entusiasmo da Lebre e a perseverança e constância da Tartaruga – é preciso agir com responsabilidade – caso contrário, o resultado será uma tartaruga que sofre um infarto. 

A LGPD e o Marco Civil brasileiros são regulamentações fundamentais para o respeito à privacidade dos consumidores e o uso consciente dos dados pelas empresas. Em outros mercados, como o americano e o europeu, companhias, desenvolvedores, sociedade civil e parlamentares estão discutindo a invariável necessidade de regularizar o uso  e a aplicação da IA. 

Estamos, dia após dia, identificando quais são os gargalos reais que as ferramentas de inovação podem gerar no futuro e no presente, já que as informações são atualizadas em tempo real. O desafio é acompanhar o ritmo da linguagem binária, do entusiasmo e da euforia diante dos resultados e promessas em torno da Inteligência Artificial. 

Escrever em pedra é coisa do passado, falamos de programações que aprendem e assimilam novidades enquanto elas acontecem. Por isso, a flexibilidade e a análise são fundamentais para aplicar IA de forma ética e com maioria de resultados positivos. 

O segredo é compreender o que costumo dizer para quem trabalha comigo: somos um eterno MVP, atuamos por meio dos aprendizados, testes e aprimoramentos. Estamos permanentemente em construção, como o híbrido Lebre-Tartaruga que vê a pista de corrida surgir embaixo dos seus pés. Pódio à vista? Difícil dizer, a motivação vem das expectativas que se realizam enquanto escrevemos, interagimos, conversamos, compartilhamos (e até enquanto reclamamos).

Em um contexto onde a economia evolui rapidamente de tech based para IA based, responsabilidade é sinônimo de liberdade para ultrapassar os limites da inovação. Por falar em sinônimo, a linguagem da Inteligência Artificial também corre em ritmo de lebre. As análises e a geração de insights entregues pela VidMob, por exemplo, são resultados da sobreposição de 38 linguagens diferentes, que empoderam os profissionais de Marketing para falarem a mesma língua dos clientes. 

A propaganda é a alma do negócio, se (e quando) conquista de vez o coração dos consumidores. O truque de mestre está em acertar o alvo, estabelecer e conhecer as regras, aprender, praticar e aprimorar os movimentos. Contar com a mira mais precisa do mercado também faz toda a diferença. A novidade é que a Inteligência Artificial lança, corre mais rápido e comemora, enquanto espera e vê a chegada da flecha. 

 

*Por Camilo Barros, VP LATAM da VidMob 

 


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