
O Brasil rural sustenta boa parte da economia nacional: responde por 27,4% do PIB e emprega milhões de pessoas. Ainda assim, quem vive no campo convive com barreiras profundas de acesso à saúde, que pouco aparecem na discussão pública. A população rural enfrenta obstáculos que vão muito além da distância física até um posto de atendimento; trata-se de um conjunto de desigualdades estruturais que dificultam o cuidado contínuo e a prevenção de doenças.
A infraestrutura é o ponto mais evidente. Apenas 6,1% dos domicílios rurais têm saneamento completo e somente 16% contam com acesso à internet. Essa combinação cria um ambiente que limita desde o acompanhamento básico até serviços modernos, como teleconsultas e agendamentos digitais. Sem conectividade e sem condições sanitárias mínimas, a atenção primária perde efetividade e o SUS opera com menor alcance justamente onde o acesso já é mais difícil.
A distância aos serviços de saúde agrava ainda mais o cenário. Em muitas regiões, moradores precisam deslocar-se mais de 50 quilômetros para realizar exames de rotina ou receber atendimento especializado. Para quem trabalha na agricultura familiar ou em atividades sazonais, essa viagem representa perda de renda, custos adicionais e a necessidade de reorganizar toda a rotina doméstica e produtiva. Não surpreende que indicadores de prevenção e acompanhamento sejam mais baixos nessas localidades.
Há também riscos específicos que ainda não são monitorados de forma adequada pelo sistema de saúde. A exposição ocupacional a agrotóxicos, poeiras e outras condições ambientais próprias da atividade agrícola pode gerar impactos importantes, como problemas respiratórios, intoxicações e questões de saúde mental. No entanto, até 2025 o SUS não possui indicadores específicos para acompanhar esses riscos, o que dificulta políticas focalizadas e ações preventivas.
Diante desse quadro, é comum enxergar o agronegócio apenas como beneficiário dos serviços públicos. Mas o setor também pode ser parte da solução. Tecnologias já amplamente usadas no campo têm potencial de apoiar políticas de saúde e reduzir desigualdades. Drones empregados no monitoramento de safras podem mapear rotas mais eficientes para unidades móveis de atendimento. Ferramentas de agrocomputação podem gerar aplicativos que conectem moradores a consultas remotas, mesmo em áreas de baixa conectividade. Técnicas de geoprocessamento, ensinadas em cursos de Agronomia, podem identificar áreas de risco sanitário e orientar a atuação de equipes de atenção primária.
Essa colaboração não substitui o dever do Estado, mas pode acelerar avanços previstos no Plano Nacional de Saúde 2024–2027, que prioriza a atenção primária rural e a ampliação da infraestrutura de monitoramento. Integrar o conhecimento técnico do agro às estratégias públicas é uma forma concreta de fazer o sistema de saúde chegar a quem historicamente ficou à margem.
Superar a desigualdade no acesso à saúde no campo é essencial para garantir qualidade de vida à população rural e para fortalecer o desenvolvimento do país. O Brasil depende do campo; é hora de o campo depender menos da sorte para ter acesso à saúde.
Escrito por: Maquiel Vidal Nardon
*Maquiel Vidal Nardon é Doutora em Agronomia e coordenadora do curso de Agronomia da UNIASSELVI.